Uh, nasty!

Setembro 22, 2007

   

Eu me lembro de estar em Guarapari, sozinha na sala (entenda – quando trata-se de uma casa de praia LOTADA, isso é muito raro) esperando o meu namorado, e os irmãos voltarem do jogo do flamengo quando tive a brilhante idéia de ocupar a cabeça de um DVD com algo aparentemente útil. Deixe-me esclarecer: Guarapari, casa de praia, família toda na Tv. Quando dava pra assistir algo além de Globo, era Domingo Legal no SBT ou a sagrada missa das seis horas da vovó.  

A sinopse acusava: açúcar, subversão e certa dose de idealismo. Até então, ok. Coloco o filme. Na Tv, um cara anuncia em Francês um concurso que elegeria, entre as mais bonitas virgens do mundo, a MISS CINTO DE CASTIDADE, pela eleição da mais bonita…. VAGINA. Como prêmio, a moçoila casaria-se com um ricão, que viria a ser filho da dona da própria empresa que fabricava os cintos. Bizarro? Engraçado, ate agora.

Noite de núpcias. O Sr. Castidade elegera uma canadense, cujo a dita – seria tão bonita e pura quanto um botão de rosa – segundo a analise do ginecologista que tirou a prova, a, digamos, “intocabilidade” das meninas. Então, a ganhadora se ajeita na cama – a inexperiência em pessoa, porém, já com um certo desejo de dar. Seu marido chega do banho de roupão, com um litro do que parecia ser álcool, ou qualquer outra substancia desinfetante e começa a passar pelo corpo da virgem. Ela, meio perplexa, não reage. Eis que ouço passos na minha casa – ok, os meninos estão chegando – penso. Na hora em que o primeiro deles entra na sala, a tela exibe um foco de um pau, ligeiramente mole, pintado de dourado, mijando em cima da virgem, que solta gritos de pavor, enquanto a mãe do ricão ri do lado de fora. E eu, com minha cara de pastel, vejo a reação embasbacada dos meninos.

O nome: SWEET MOVIE.  Doce? Sei. Urina é doce?

 A “obra” é dirigida pelo mestre subverso-escatológico Dusan Makajev, no ano de 1974, e filmado no Canadá. Eis a sinopse do que eu peguei, tempos depois, na INTERWEB:  “Sweet Movie conta a história, ou melhor, mostra, porque a história de Makavejev nunca é linear, no sentido hollywoodiano, de um industrial do açúcar, o rei do cinto de castidade. Esse homem é um exibicionista que ostenta sua potência por meio de um pênis revestido de ouro. Contrata Miss Mundo, que toma um banho de chocolate. E há um barco cuja proa ostenta uma estátua com a representação da cabeça de Karl Marx. É uma embarcação que vaga meio sem rumo, pois Makavejev é uma displaced person, que não acreditava muito no comunismo nem no capitalismo, achando que nenhum desses sistemas possibilita a libertação do homem. O capitalismo aliena, estimula o conformismo e o consumismo, o comunismo, por ser totalitário, escraviza as mentes.”Entendeu? Nem eu. Você, querido leitor, deve estar se perguntando: “POR QUE DIABOS ESSA MENINA ALUGOU ESSE FILME?”. Bom, meses depois, eu também me faço essa pergunta, e aproveito para puxar da memória alguns dados da parca lembrança de OUTRORA: Peguei porque achei interessante o nome aliado à capa –  um navio com a cabeça de Karl Marx, como explica bem a sinopse. Sei que o resto da noite resumiu-se a pirus pequenos, demonstrações bizarras de afeto, gente cagando, e comendo, pedofilia e fantasias bizarras. O pior de tudo foi que meu irmão, meu namorado e o irmão dele, decidiram ver comigo. Cara de pastel. Talvez se eu assistisse sozinha, ou melhor, eu e toda a minha intelectualidade, teríamos entendido todo o significado implícito em meio àquela cena “Wateriana”* (leia o resto e entenderá)(embora o cara em questão seja contemporâneo)(enfim, entenda).

Meses depois, estou já em Vitória, dando uma zapeada na tv a cabo na madrugada de uma segunda feira, e eis, que no Cinemax me deparo com uma cena de um traveco gordo e espalhafatoso protagonizando uma série de atentados a minha sanidade. Divine (o nome do traveco), um cara bizarro, e uma mulher que acreditava ser Marlyn Monroe disputavam com outro casal, hétero, mas não menos bizarro, o título de (?) obscenidade. E em meio a essa obra prima de John Waters, e um monte de boquetes e paus extremamente pequenos (mas uma vez, WHAT’S WRONG WITH YOU, PEOPLE?). Chama-se Pink Flamingos. Engraçado que, editando esse texto para colocar no blog, talvez anos depois de tê-lo escrito, me deparo com a SEGUINTE QUESTÃO: Eu adoro o John Waters, e acho a DIVINE extremamente sensacional. Pra quem não sabe, o Waters foi aquele que dirigiu “Cry Baby”, com o Johnny Depp e tal…Coisa de louco. Chega, né? Chega

justesse

Setembro 21, 2007

   “O direito a desrazão significa poder pensar loucamente, significa poder levar o delírio à praça pública, significa fazer do Acaso um campo de invenção efetiva, significa liberar a subjetividade das amarras da Verdade, chame-se ela identidade ou estrutura, significa devolver um direito de cidadania pública ao invisível, ao indizível e até mesmo, por que não, ao impensável”. Peter Pál Pelbart 

Eu sempre fui meio impressionada com o ser humano. Andava na rua olhando cada um e imaginando que todos eles, sem exceção teriam alguma história pra contar. Eles não são celebridades, não são ricos, não tem PhD, não tem ensino médio, ou tem, ou são alcoólatras, ou religiosos demais…Não importa. Cada um dá sangue para o que quer, mesmo que isso pareça mínimo aos olhos dos outros. Nós temos mania de achar que as histórias têm lugar e hora certa. Que a vida de uns pode ser muito mais interessante que a de outros. Mas de certo modo, todos temos as mesmas possibilidades de nos “aventurar”, e saber olhar histórias do quotidiano com a mesma importância que se dá a um filme de boa qualidade, por exemplo, é valorizar muito mais o curto tempo que temos por aqui.            

Me interesso pela situação dos meios de comunicação e do público em geral. Afinal, a comunicação envolve emissores, receptores e, é claro, meio que veicula ou transmite as mensagens. Por estarmos inseridos num mundo cada vez mais dependente da informação, fazendo dela uma aquisição cada vez mais valorizada, nos parece lógico pensar que ela também é tratada de forma especial. Por ser um bem cada vez mais valioso, será que os meios de comunicação de massa passaram a tratar a informação de forma diferente? Ou será que deveriam? Por que não deixar que um portador de Aids fale do vírus com a mesma credibilidade de um médico? Por que nos vestirmos com o manto da verdade quando existem tantas histórias tão verdadeiras e interessantes para serem contadas? Fontes oficiais deveriam ser os seres viventes, e não os observadores.           

Eu tinha mesmo um amigo que costumava classificas as pessoas enquanto poetas e poesia. As poesias corriam soltas, viviam, de fato, sem se importar muito com lembranças. Enquanto isso o poeta se importava em retratar cara uma das histórias, embora muito menos vividas, e muito menos suas. Por que não ser ambos? Viver e contar…Apresentar alternativas à chamada imparcialidade, muitas vezes vista como não-humanista e apática. Além da natural e inevitável imparcialidade, defendida por muitos, a informação sofre alterações feitas de maneira deliberada a fim de que correspondam com a ideologia daquele que a emite. O problema principal não está na imparcialidade em si, mas na idéia de que ela realmente existe e de que ela fundamentalmente representa a verdade. Que verdade? E se eu não acreditar? Ainda sim continua sendo verdade? Segundo William Faulkner, “A melhor ficção e muito infinitamente mais verdadeira do que qualquer tipo de jornalismo”. Eu ainda não consegui distinguir a diferença entre ficção e realidade. Ou não consegui ainda estabelecer algo mais complexo do que “eu acredito” ou “eu não acredito”.  E, sinceramente, não vejo nada muito além disso.